Muita gente chega até a Wicca com brilho nos olhos e, algum tempo depois, se afasta com a sensação de que “não era bem aquilo que imaginava”. E, sendo bem direto, na maioria das vezes isso não acontece porque a Wicca é complicada demais ou “cheia de regras impossíveis”. A raiz da questão costuma ser outra, e ela é até simples de entender.
Hoje, o primeiro contato com a bruxaria moderna quase sempre vem pelos livros ou, principalmente, pela internet. E a internet é um espaço incrível, mas também é um lugar onde todo mundo fala sobre tudo. Isso não tira o mérito de ninguém, mas significa que nem tudo que é dito ali representa de fato uma prática wiccana estruturada, vivenciada dentro de um grupo ou tradição.
Aí começa o primeiro choque. A pessoa constrói na cabeça uma ideia de Wicca completamente livre de qualquer estrutura, quase como se fosse um caminho onde cada um faz absolutamente tudo do seu jeito desde o início. Só que, quando ela se depara com a realidade de um coven ou de um clã, percebe que existem orientações, práticas definidas, formas de conduzir rituais, estudos organizados. E isso passa a ser visto como um problema, como se fosse uma limitação.
Mas aqui vai um ponto importante que muita gente ignora. A Wicca é uma religião. E toda religião tem seus fundamentos, suas diretrizes, seus acordos internos. Esses “dogmas”, que variam de grupo para grupo, não existem para aprisionar ninguém, mas para dar base, coerência e continuidade à prática.
Cada coven, cada clã, desenvolve sua forma de trabalhar a partir da sua realidade, da sua experiência e daquilo que já foi testado ao longo do tempo. Não é uma caixa para te encaixar, é um chão para você pisar com mais segurança.
E é curioso como algumas pessoas rejeitam isso de imediato, como se qualquer estrutura fosse algo negativo. Só que, na prática, ninguém aprende sozinho de verdade. Mesmo quem defende uma prática totalmente livre ainda busca referências, lê livros, assiste vídeos, conversa com outras pessoas. Ou seja, continua aprendendo a partir de fontes externas.
No fim das contas, a diferença é só o formato. Em vez de um caminho organizado, a pessoa monta o próprio caminho com pedaços de vários lugares. E tudo bem. Mas ainda assim existe influência, existe aprendizado, existe uma base sendo construída.
Na Wicca, essa base é oferecida de forma mais consciente e direcionada. Você aprende aquilo que já foi vivido, testado e validado por outros praticantes. E isso não significa que você vai ficar preso a isso para sempre. Muito pelo contrário. Esse é o ponto de partida para que, no momento certo, você desenvolva a sua própria prática com mais consistência.
Outro ponto que precisa ser falado com clareza é a importância de escolher bem onde você vai se inserir. Não é sobre aceitar qualquer estrutura, é sobre confiar na estrutura que você escolhe. Antes de entrar em um grupo, observe, pesquise, entenda como ele funciona, veja se aquilo faz sentido para você.
Quando existe confiança, respeito e abertura, o aprendizado flui. E a magia também.
A bruxaria, apesar de todo o caminho individual que cada um trilha, é profundamente social. Ela é celebrada em conjunto, vivida em troca, fortalecida na convivência. E isso exige, em algum nível, alinhamento, acordos e sim, algumas regras.
O problema não está nos “dogmas” em si, mas na expectativa equivocada de que eles não deveriam existir.
Claro, existem casos em que a pessoa realmente não se encaixa em um grupo específico. Isso acontece. Mas não é a regra, embora muita gente goste de acreditar que é exceção o tempo todo.
Nem sempre o desconforto vem de um lugar errado. Às vezes ele só mostra que ainda estamos aprendendo a lidar com processos, com disciplina, com convivência e com o próprio caminho espiritual.
Entender isso muda completamente a forma como a gente enxerga a Wicca. E, mais do que isso, muda a forma como a gente se posiciona dentro dela.
Porque no final, não se trata de liberdade contra estrutura. Se trata de maturidade para reconhecer que uma coisa sustenta a outra.
Sacertote Wiccano e Elder no Clã de Arianrhod
