Essa é uma pergunta que eu recebo com certa frequência, e confesso: ela é maravilhosa. Porque nos leva direto ao coração da espiritualidade pagã e wiccana. Afinal, se estamos no século XXI, rodeados de tecnologia, ciência, redes sociais e inteligência artificial (inclusive essa que está te ajudando a ler esse texto agora!), por que tantas pessoas - inclusive eu - continuam se conectando com Deuses cujos nomes já eram sussurrados ao redor do fogo há milênios?
Vamos conversar sobre isso com calma.
Os Deuses não ficaram no passado
Cultuar Deuses Antigos não é uma tentativa de "voltar no tempo". É, antes, um ato de reconexão. Os Deuses que chamamos de "antigos" são, na verdade, eternos. Suas histórias podem ter nascido em culturas específicas - como Ísis no Egito, Thor na Escandinávia, Arianrhod entre os celtas, mas seus arquétipos vivem dentro de nós. Eles representam aspectos da natureza e da psique humana que continuam absolutamente vivos.
Carl Jung, o psiquiatra suíço que influenciou fortemente muitos caminhos espirituais modernos, escreveu: “Os deuses tornaram-se doenças.” O que ele quis dizer com isso? Que quando nos desconectamos dos símbolos divinos, essas forças não desaparecem, elas se manifestam de forma distorcida em nossas emoções, neuroses e traumas. Quando reconhecemos os Deuses como forças vivas, não apenas lá fora, mas dentro de nós, ganhamos ferramentas para autoconhecimento, cura e transformação.
O Culto dos Deuses na Wicca
Na Wicca, essa conexão é fundamental. Somos uma religião que vê o Divino manifestado na Natureza, e os Deuses são expressões dessa sacralidade, tanto o Deus quanto a Deusa, em suas diversas faces. Cultuá-los não é "adorá-los" no sentido de submissão, mas nos relacionar com eles.
A Deusa pode se apresentar como Ártemis, Hécate, Brighid ou Arianrhod. O Deus pode ser Cernunnos, Pan, Lugh... Cada forma traz um ensinamento, uma energia, uma história que conversa com momentos da nossa vida. O culto acontece em rituais, festivais sazonais (os Sabás), meditações, oferendas simbólicas, orações e vivências espirituais. Cada sacerdote(a), bruxa ou praticante encontra seu modo de manter essa relação viva.
A autora Starhawk, no livro A Dança Cósmica das Feiticeiras, diz: “Os Deuses estão vivos, a magia está a acontecer, e o espírito está fluindo novamente no mundo.” E está mesmo! Basta ver o número crescente de pessoas que, cansadas de uma espiritualidade distante e hierárquica, estão buscando caminhos mais orgânicos, respeitosos com o corpo, a Terra e o mistério.
Mas por que ainda hoje?
Porque precisamos de referência. Precisamos de mitos, de símbolos, de histórias que nos lembrem quem somos e do que somos capazes. O culto aos Deuses nos ajuda a acessar partes profundas da nossa alma. Quando invocamos uma Deusa da Lua, por exemplo, não estamos apenas olhando para o céu, estamos olhando para dentro, para nossa intuição, nossos ciclos, nossa sombra e luz.
É por isso que esse caminho tem tanto a oferecer à espiritualidade moderna. Ele não exige que você acredite cegamente, ele te convida a vivenciar. É uma jornada de mistérios, sim, mas também de revelações. De comunhão com o sagrado no cotidiano. E, talvez, isso seja o que mais precisamos hoje: um sagrado que nos olhe nos olhos, que respire conosco, que floresça nas pequenas escolhas.
"reencontrar os Deuses é reencontrar a si mesmo"
Cultuar os Deuses Antigos é muito mais do que reviver uma tradição ancestral. É ampliar a consciência. É se permitir enxergar o divino no mundo e em si mesmo. É trilhar um caminho onde a espiritualidade não está presa a dogmas, mas aberta ao encantamento, à sabedoria e ao amor.
Se você sente esse chamado, saiba que ele não vem por acaso. Os Deuses nos tocam quando estamos prontos. E o mais bonito: não há um único jeito certo de atendê-los. Há apenas o seu.
Damon Aiden
Sacerdote Wiccano
Elder no Clã de Arianrhod
